As vozes que empurram a bola para o gol

Já imaginou como seria assistir à apresentação de uma orquestra sinfônica, mas não poder ouvir os sons que cada instrumento traz, os sentimentos e sensações que eles transmitem e inspiram? Assim seria o futebol sem a torcida, mais especificamente as organizadas. Cabe a elas incentivar os 11 jogadores que defendem sua agremiação e também os milhares de corações interligados na arquibancada. 

Não se sabe ao certo o clube percursor das organizadas no Brasil, muitos apontam o Flamengo ou o São Paulo, em meados dos anos 40. Mas o fato é que elas se espalharam por todo o País, recebendo diferentes nomenclaturas, estilos e um número enorme de adeptos.

A visão que se tinha, de ser um espaço reservado para festa, aos poucos foi deixada de lado com o passar dos anos e começaram os repúdios como: “Só tem criminosos”, “Aglomerado de vândalos”. Taxações do tipo se tornaram constantes, algo fácil de se compreender, devido aos inúmeros incidentes promovidos por pessoas caracterizadas com aparatos que os identificavam ser de uma organizada.

Realmente existem aqueles que usam as organizadas como uma espécie de blindagem para promoverem atos ilícitos. Contudo, em 2003, foi criado o estatuto do torcedor, que tem como um dos seus intuitos a prevenção da violência, coibindo tais atitudes por meio do cadastro dos seus membros, tornando fácil a identificação e posteriormente a punição, caso haja algum evento extraordinário. O cadastro é dado por meio da apresentação de tais documentos e informações:

• Nome completo;
• Foto;
• Filiação;
• Rg;
• Cpf;
• Data de nascimento;
• Estado civil;
• Profissão;
• Endereço;
• Escolaridade;

O Diretor de Assuntos Jurídicos, Wendel Lopes, da Sociedade Esportiva do Gama afirma que: “ O cadastramento está previsto no art. 2º-A, da Lei 10.671/2003, que criou o estatuto do torcedor. Não há uma obrigatoriedade de a torcida organizada manter esse cadastro perante as autoridades. Mas a lei determina que ele permaneça sempre atualizado e que as autoridades públicas podem requisitar as informações a qualquer momento. As reuniões com o Ministério Público foram importantes para ajustar o comportamento e identificação dos torcedores organizados. ”

No caso da Torcida Ira Jovem do Gama, Lopes ressalta que houve cooperação com o MPDFT para o integral cumprimento do Estatuto do Torcedor, visando o bom desenvolvimento das atividades desportivas, especialmente em relação aos jogos de futebol, garantindo a realização dos eventos com segurança e conforto aos torcedores.

Rafael Calil, 23 anos, torcedor fiel do Gama, acredita que o cadastramento torna mais seguro as arquibancadas. “ Posso dizer que ele é fundamental para ter uma noção de quem está entrando nos estádios, mesmo não tendo a biometria. Caso haja alguma confusão e as câmeras de segurança flagrem algum dos brigões ele, somente ele deva ser punido, e não a torcida como um todo. E também passa mais segurança para os torcedores comuns, o povão, porque se acontecer algo, basta ir em alguma delegacia e puxar o cadastro dos membros da organizada para chegar a uma punição”.

Ainda segundo Calil, as mudanças mais notadas após o cadastramento incluem a possibilidade de festejar as vitórias do time com mais tranquilidade. “Já no primeiro jogo, onde eles ficaram punidos por não ter feito o cadastro e não puderam fazer a festa, é como se eles não estivessem lá, a animação, a graça do jogo não era a mesma, a festa na arquibancada parece ser sem graça. Tanto é que quando foram liberados a primeira vez no clássico, foi o jogo todo um clima diferente, e assim nos jogos seguintes, era festa 30 minutos antes dos jogos até 30 minutos após o jogo. A mudança de atitude deles era notada para os torcedores que foram nos jogos em que eles estavam punidos por não terem feito o cadastramento e nos jogos depois da liberação, posterior ao cadastro. ” Explica ele.

O extracampo também é um fator diferencial para quebrar o paradigma da violência. Muitas organizadas são autoras de obras de caridade, como campanhas do agasalho, mutirão de sopas, etc.

Texto: Marcus Rodrigues – Brasília

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